PARTE 4 (pp.118 - 123)

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Nastassia e sua mãe são tão íntimas que ninguém pode descrever esse sentimento. Nastassia diz "minha mãe e eu temos esse relacionamento estranhamente íntimo. Nenhum outro relacionamento pode chegar a ser mais íntimo do que esse. É assustador. Até quando eu me relaciono com um homem, eu comparo com a minha relação com mamãe. Ela é uma amiga, mas ainda é uma mãe e tudo o que uma mãe precisa ser, ela é. Ela está realmente observando e cuidando e não quer nada, apenas dar, porque essa é sua alegria. Até quando eu não consigo agüentar ninguém, nem eu mesma, ela é como o sol nascendo pra mim. Ela dedicou toda a sua vida a mim. Às vezes eu sinto que ela deu a sua vida por mim e agora talvez seja o meu dever levá-la a algum lugar. Mas o que ela não sabe? Ela sabe coisa que eu não poderia começar a saber. Ela ainda é tão fresca com idéias que eu já supus. Ela às vezes me acorda e diz 'você não vê?' E ela me faz ver e sentir coisas de novo. Ninguém, nem meu pai, nem qualquer outra pessoa, tem feito isso por mim, exceto filmes."

"Quando eu era pequena, ela sabia instintivamente quando eu precisava de paz. Ela me deixava estar e estar, e estar... Às vezes ela pensa que ela não era suficientemente severa. Ela disse que eu outorguei isso, mas não. Ela me deu liberdade, um tipo de liberdade o qual você deixa seu filho ter, mas você sempre sabe quando você tem que estar lá. A proteção estava sempre lá. Ela é como uma mãe de leão e lutaria por mim por qualquer coisa. Ela nunca me prenderia, mas tomaria cuidado a cada instante, a cada segundo da minha vida e se alguém se voltasse contra mim, ela enlouqueceria. Eu poderia estar certa ou errada, mas ela sabia que a coisa mais importante era proteger sua filha, pois você só tem uma a outra. Todos os outros são como uma selva."

"Minha mãe me disse 'você é tão jovem e tão velha'. Eu me apaixonei pela primeira vez quando tinha 13 pra 14 anos. Ele era um ou dois anos mais velho que eu e ficou durante um ano me observando quando eu brincava na rua com meus amigos ou quando eu ia em coffee shops, antes ele até tinha ousado dizer 'oi'. Esta é a mais romântica história de amor. Esta foi a minha primeira experiência real. Minha mãe não objetou ao fato de que eu estava namorando aos 14 anos. Ela não poderia. Ela nos deixou em nosso mundo e não tentou destruí-lo. Nós estávamos apaixonados e éramos duas crianças, minha mãe não era contra isso, mas entendia. Muitas pessoas não gostam disso, eles querem que seus filhos sejam sempre crianças. Eu sou muito grata a minha mãe por isso. Você sabe o quanto você fica envolvido por seu primeiro amor. Seus pais te fazem sentir que é sujo. Isso pode destruir algo em você, algo bem pequeno, a parte mais importante do seu ser, e ficará assim. O mesmo aconteceu com Roman Polanski. Minha mãe e eu nunca conversamos sobre idade. Ela sabia que eu sentia algo muito forte por Roman, mais como uma pessoa do que qualquer outra coisa. Ele era este homem que de repente prestou atenção em mim e não disse 'você é jovem demais pra falar sobre isso ou pra saber disso'. Ele fala contigo como uma pessoa. Minha mãe sempre disse 'qualquer coisa que você faça, certo ou errado, eu tenho certeza que é certo se você seguir seu destino. Se você sofrer, tudo bem; se você estiver feliz, tudo bem. Eu quero que você faça o que você sente.'"

"Houve uma época muito difícil quando eu tinha 15 anos, quando eu comecei a ser menos criança, tentando ser uma mulher e independente, achando que eu tinha que seguir meu próprio caminho. Minha mãe não entendeu. Ela disse 'eu sou tão aberta com você que você pode fazer o que quiser de qualquer forma, apenas me comunique'. Eu vi todos os meus amigos tendo problemas em casa, saindo, tendo colapsos nervosos, então eu pensei que era dessa forma que eu deveria ser, mas nossos problemas nunca eram a escola e as drogas. Era porque o amor que tínhamos uma pela outra era tão profundo que de repente havia um corte. Eu era ruim pra ela porque eu a amava muito. Eu queria sair desse amor e queria essa rude experiência, vida desprotegida. Eu fui embora e a deixei com o coração partido. Às vezes eu ficava na casa de amigos. Era bom demais que eu quis o ruim. Este período da minha vida será sempre uma parte de mim. Rejeitando o amor, as coisas boas, e tentando destruí-las para se construírem de novo. Quando eu fui à Itália fazer Tentação proibida, eu fui sozinha e senti tanto a falta dela. Depois de Tess, eu morei na França e tive minha própria casa pela primeira vez, mas tão breve quanto foi nossa separação, nós voltamos a ficar juntas tão forte quanto antes. Hoje quando estamos juntas e conversamos, é como um êxtase total. Os homens têm ciúmes do meu relacionamento com minha mãe. É algo tão incrível saber que o quer que aconteça, alguém estará lá, mesmo se você for um assassino. Quanto mais crimes você comete, mais eles te amam. Eu não consigo explicar isso. Não é só porque ela é minha mãe e me trouxe ao mundo. Eu acho que eu sou uma das pessoas de sorte. Eu me machuco quando machuco minha mãe, mas quando eu faço isso, é porque eu estou sangrando por dentro e eu quero dar isto a ela como um presente. Ela é a única pra quem eu faço isso porque ela é a única pessoa que eu realmente amo."

"Meu pai nos amou muito, mas ele é o tipo de pessoa que te sufoca. Ele não te deixa ter seus próprios prazeres. Se você pensa ou sente de um jeito e ele sente de outro jeito, ele não aceitará isso. Minha mãe queria trabalhar. Pessoas queriam que ela fizesse filmes, mas ele queria que ela ficasse em casa, fosse mãe, esposa, Vênus, este planeta onde ele pudesse aterrisar a qualquer momento. Nós tínhamos apenas uma coisa: nós três, o que era ótimo. Esta união eu dificilmente vi em algum lugar, mas também era chocante, era demais. Era assim 'ou eles se separam ou eles não fazem'. Eles realmente tinham que se separar. Eu tinha 8 anos e eu me lembro que eu não fiquei surpresa com tudo isso. Eu não fiquei muito machucada porque tudo esteve sempre no ar. Eu sempre senti coisas, vi coisas. Crianças podem ver coisas, até mais do que as pessoas que estão envolvidas. Eu sabia que isso tinha que acontecer. Depois da separação, minha mãe pela primeira vez viveu. Ela era muito jovem, como uma garotinha. Ela era muito brilhante, mas jovem e de repente ela estava livre, livre pra namorar e foi isso o que ela fez. Era um tipo diferente de vida pra ela e pra mim também."

"Quando eu tinha 10 ou 11 anos, minha mãe morou com um pintor e escultor. Nós não tínhamos dinheiro. Ele era o tipo de cara que podia dar qualquer coisa, mas ele não dava nada. Ele poderia construir uma casa, mas só construiria pela metade. Então minha mãe vendeu tudo o que ela tinha, como jóias, e nós colocamos num enorme furgão tudo o que foi deixado, tapetes e luminárias. Nós tiramos as janelas e o fizemos habitável. Foi lindo e nos aventuramos em sonhos infantis. Era ótimo pra mim. Eu comecei a pintar com uma amiga da minha mãe. Repentinamente as cores significavam muito pra mim. Eu pintava mulheres com olhos refletidos, ou fadas, mulheres voando com asas, ou rainhas. Eu passava horas pintando pequenas flores no vestido da rainha. Eu sempre pintava mulheres, nunca homens. Nós viajamos por 4 meses. Então nós esvaziamos o furgão e voamos para Caracas, Venezuela. Eu estudei numa escola em Roma, Berlim, Caracas e depois na Alemanha novamente. Foi assim que eu aprendi línguas. Minhas orelhas era afinadas. Eu falo alemão, inglês, francês e italiano fluentemente. Quando eu tinha 15 anos, eu decidi deixar a escola. As coisas que eu queria aprender, eu não aprenderia, mas eu senti que a escola era uma perda de tempo. Havia muitas coisas que eu não aprendi e ainda não sei, mas havia coisas que eu aprendi quando eu deixei o que não era ensinável. Era um instinto."

Nastassia não gosta de falar sobre Klaus. Eles só se encontraram uma ou duas vezes para um almoço ou jantar nos últimos 11 anos. Ela diz "meu pai é tão expressivo que coisas que ele sente são visíveis em sua pele antes mesmo de serem pensadas. Ele aquece. Enquanto outras pessoas trabalham nisso, ele nasceu com isso. Seus olhos são como o céu e como o inferno ao mesmo tempo. Eles são tão claros e azuis, e alertas e sérios, e depois eles são como o inferno. É assim que ele é. Ele é totalmente leve e puro e depois o inferno. Ele dá tudo e nada. Ele é como o sol e depois um iceberg, depois é inexistente e depois é o sol de novo, o que é bom, é muito melhor do que a maioria das pessoas são."

"Eu não tinha certeza do que meu pai fazia quando eu era pequena. Eu pensei que todo pai fazia o que o meu fazia. Então eu o via chegando em casa e mudando de humor, e dizia a minha mãe 'o que ele faz fora de casa? Ele chega em casa e fica doido'. Até meu cachorro, quando ouvia os passos dele, ia pra trás de mim e se abaixava, mas eu não tinha medo dele. Ele era tão doce comigo e me trazia um cesta de frutas. Ele era muito tenro. Minha mãe e eu ríamos quando ele imitava o jeito de todos os animais, da pulga até o elefante. Nós ficávamos loucos. Nós todos começamos a atuar, meus pais e eu. Era um teatro livre, sem cortinas, sem platéia. Meu pai me mostrou que a experiência está lá para o momento. Não era para pô-la em um armário e guardá-la. A vida é cheia de 'agoras'. Ele era o mais tenro, o mais delicioso, belo, aberto, e de repente ele se tornava em uma besta, e depois se ajoelhava e implorava perdão por ter se tornado aquilo. Ele literalmente começava a chorar porque odiava a si mesmo por isso. Mas de repente ele se transformava em besta de novo. Isso era o que o tornava tão surpreendente. Quando ele ficava insano, ele apontava coisas em você que nunca tinham sido reparadas antes, e então, depois do perdão, ele se tornava na pessoa mais tenra, calma, como uma flor de novo. Ele te jogaria totalmente fora, te limparia por dentro pra que você não tivesse nada preso dentro de si. Mas quando você quisesse se limpar e ter sua própria personalidade, ele colocaria uma cortiça em ti de modo que você não pudesse se expressar."

"Ele conversava muito consigo mesmo. Ele dizia 'o que estou fazendo? Não é o suficiente, quero fazer mais'. Isto é basicamente o que ele falava. Ele ficava frustrado porque realmente era um grande ator, mas não tinha a oportunidade, até onde eu sei, para mostrá-lo e trabalhar com ótimas pessoas. Por 22 anos ele trabalhou escrevendo a biografia do Paganini, ele sempre quis fazer isso, mas seu sonho deveria ter um navio e não uma terra onde pudesse desembarcar. Ele costumava falar sobre isso e dizer 'um dia nós iremos navegar pelo oceano no nosso navio, atuaremos com os peixes e iremos pelo mundo sem depender de ninguém'. Ele tinha rolos brancos enormes com desenhos de navios e por muitas horas se sentava obcecado na frente daqueles desenhos."

"Mas assim que ele pegasse algum dinheiro, ele gastava. Estávamos financeiramente quebrados o tempo todo, mas era ótimo por causa do valor das coisas que ficavam com a gente. Eu poderia viver sem dinheiro se eu precisasse. Ele nos daria um castelo por um mês, depois nós ficaríamos quebrados de novo, nos sentaríamos em algum lugar pequeno e ele conseguiria dinheiro emprestado só pra nos fazer feliz. Ele queria que minha mãe fosse uma rainha e eu uma princesa como nos contos de fadas. Nós tínhamos uma casa enorme quando eu estava com 7 anos, era em Roma na Via Appia Antica. Ela costumava ser uma igreja, havia um quadro pendurado lá há anos e tinha uma terra enorme com uma serpente e uma pensão. O marido de uma senhora morreu e ele voltava e a visitava todas as noites naquela casa. Ela provou isso, o lugar era assombrado. Meu pai era tão ciumento que ele não deixava nenhum homem pra nos proteger enquanto ele estivesse fora da cidade trabalhando. As portas e a lua brilhavam através das janelas e as sombras tinham vida. Era como um filme, nós costumávamos ouvir o som de alguém comendo pepino e o cheiro dele pela sala. Eu juro que é verdade, nós não estávamos loucos."

"Meu pai ficava obcecado com uma coisa em toda a sua vida. Quando ele estava com sua família, seus filhos, nada mais existia, mas quando ele se separa, ele se separa. Memórias podem ficar com ele, mas ele está em uma nova vida e por ele ser tão obcecado, ele só consegue dar atenção pra sua nova vida, mas enquanto ele está te dando algo, é com toda vontade. Eu nunca vi ninguém assim na minha vida. Quando eu o vejo hoje, ele está em um mundo diferente, ele se dá lá e não se dá mais pra gente. Uma vez eu o entendi e o aceitei, então eu não o menosprezo mais. Ele e minha mãe são as melhores coisas que me aconteceram. Eles se juntaram e me deram tudo o que eu queria ter novamente. Minha infância foi a época mais linda da minha vida, foi e sempre será dentro de mim. Eu enxergo agora o quão precioso e maravilhoso meu pai realmente era. Ninguém que eu conheça agora é assim. Ninguém em minha vida se dá, exige e se abre. Ele é muito extremo. Eu acho que ninguém me amou tanto. Só agora eu pude perceber o que realmente aconteceu. Meu pai pisou e disse 'deixe-o fora' e tão logo esteve fora, ele quis pisar de novo. Todas essas coisas eram boas e ruins, mas eu não poderia ter somente o bom."

"Eu acho que talvez em minha vida eu sempre tenha procurado por alguém como meu pai, talvez para recriar algo que eu senti quando era criança, mas agora eu tenho procurado o contrário. Eu não poderia me juntar com um homem assim. Quando eu era mais jovem, eu estava atraída por homens mais velhos. Eu gostava do fato de que alguém pudesse me guiar e me ensinar coisas, de que eles tinham toda uma história. Eles me equilibravam porque eu estava sempre pulando, procurando, questionando. Eu sempre senti que eu poderia lhes dar mais do que eu daria a uma pessoa da minha idade porque o eu tinha, eles precisavam e o que eles precisavam, eu tinha. Então era uma justa troca, mas agora a troca que eu preciso é diferente. Eu quero experimentar e ver coisas com alguém que nunca as viu antes. Também, pessoas mais jovens são menos cheias de complexos. Eles estão mais prontos para a vida do jeito que ela vem, eles só a pegam como ela vem. Às vezes eles são mais cruéis, mas muito mais claros."

"Eu não assisti todos os filmes que meu pai fez. Por algum tempo eu me recusei a vê-lo até mesmo nas telas, isso aconteceu até eu começar a aceitá-lo. Agora eu irei assistir um dos seus filmes que está em cartaz. Eu acho que ele é ótimo e poderia ser ótimo. Ele é formidável nos momentos em que ele elimina algo, mas ele precisa trabalhar com alguém que é tão distante quanto ele, ou com alguém totalmente calmo, mas algo que obrigue a destacar a fase em Berlim. Ele era como o homem da lua. Eu fico feliz quando eu me vejo nele nas telas, mas porque nós nos fomos tão fundo no nosso relacionamento, a felicidade é como um perfume leve ou uma brisa sobre algo que está queimando dentro da gente que nós não podemos negociar. Eu gostaria de contracenar com ele em um filme, antes eu pensava que nunca iria querer, alguém teria que me matar antes de eu fazer isso. Agora eu atuaria com ele, talvez eu fizesse isso por mim, seria como dar antibióticos pra alguém que está doente. A doença é a cura."

(continuação)

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