GERMAN | JAPANESE | PORTUGUESE
Bom apetite, senhora Kinski. Você mesma tem pedido sua própria sopa...
Sim, eu amo sopas. Às vezes quando eu estou com muita fome, eu mesma peço três sopas diferentes. Eu acredito que veio da minha infância, se alguém estava faminto e frio, a sopa era o melhor prato a ser servido, era um tipo de cura.
Sua infância foi extrema. Quando era filha de Klaus Kinski, você tinha tudo, mas quando ele a deixou, de repente você não tinha mais nada...
Não era simples. Uma criança não deseja a si mesma 50 pares de sapatos, um Rolls Royce e um relacionamento difícil com os pais, embora eu fosse muito próxima da minha mãe. Naturalmente, eu olhava e pensava nas outras crianças, por acaso eu tinha o melhor.
Você sente falta do seu pai?
Não, ele era uma pessoa terrível. Ainda consigo lembrar de quando eu era criança, ele chegava em casa sempre tão barulhento e minha mãe sempre chorava. E quando ele se foi, ficou tudo ok pra mim, mas ele não se preocupou conosco, o que foi terrível. Então eu nunca mais o respeitei e também não adquiri nada mais dele. Quando alguém vem falar comigo sobre meu pai, em cada caso tenho rido e dito: isso é uma piada.
Por que você se sentiu paralisada, depois que seu pai foi embora, para assumir o papel de sua mãe?
Minha mãe nunca tinha trabalhado antes e como meu pai nos deixou, ela não poderia trabalhar. Nós não estávamos bem. Então eu, eu pensei sobre as preocupações dela e eu quis trabalhar, ainda criança, para possibilitar uma nova vida pra gente.
Mas você tinha somente 9 anos...
Sim, e isso me chocou tanto que eu não poderia desistir: vou e simplesmente trabalho. Assim, eu entrei em negócios e simplesmente as coisas foram me levando. Eu não me senti mal por isso, eu tinha algo pra levar pra casa.
O que você levava pra casa?
Eu não só levava comida, mas objetos também que minha mãe pegava e vendia. Eu imaginava: Agora ela precisa de um casaco ou de um collier e assim por diante - deste modo eu me tornei tão mais esperta quanto possível. E às vezes também não tão mais inteligente...
Você foi pega?
Sim, mas eu ainda era muito jovem. Eu recebi cartas da polícia, mas nós nunca as respondemos porque eu não sabia como se fazia.
E você acabou indo pra prisão.
Sim, mas só dois anos depois! Eu terminei um filme com Marcello Mastroianni e como voltei pra casa, a polícia me pegou e me prendeu - acredito que foi por dois ou três meses. De qualquer maneira, foi um tempo suficientemente longo, tanto que pedi a um amigo para me trazer chocolate. Eu coloquei um pedaço na boca e simplesmente fechei os olhos...
Como foi essa experiência?
é estranho dizer. Não foi tão terrível, foi uma das experiências mais interessantes da minha vida, embora eu tivesse trabalhado por um longo tempo e levasse uma vida luxuosa. Não foi nada mal, eu sabia que eu não tinha feito nada ruim, eu só fiz isso porque tinha que fazer. Eu também achei que foi bom eu ter pagado por isso. Fiz amizade com algumas garotas lá dentro, nós queríamos sempre nos comunicar, mas infelizmente perdemos contato uma com a outra.
Graças ao mundo do cinema, você então se perdeu no caminho tortuoso: com 12 anos, Win Wenders te contratou para seu filme "Falso Movimento". Você estava orgulhosa?
Eu tive logo este sentimento: chegou a hora de fazer isso. Naquele tempo nós morávamos em Munique, em um trailer com um homem que mamãe vivia. Ele representava uma figura paterna pra mim, mas também não tinha nada. Assim que eu começasse a trabalhar, eu poderia me mudar com minha mãe para um pequeno e limpo apartamento.
Mas você ficou logo marcada como uma ninfa sensual nos seus primeiros filmes. Alguém te usou?
Eu acho que eu simplesmente não tinha suficientemente um guia naquele tempo e também talvez não tivesse a confiança própria necessária. Eu estava em uma missão: ok, o trabalho é este aqui e hoje eu simplesmente faço isto, amanhã aquilo e assim por diante. O filme de Wenders - e o de Wolfgang Petersens "Tatort - Reifezeugnis" - tem tudo muito ajustado e moldado. E o próximo diz pra vir fazer isso mais uma vez e acelera isso mais uma vez... Eu parecia um pouco estranha, mas pensei que tudo ficaria bem e que eu poderia continuar a trabalhar.
Por outro lado, você trabalhou com grandes profissionais: Wenders, Polanski, Mastroianni. Você tem orgulho disso?
Provavelmente esses diretores viram algo em mim, o que era certo para esse ou aquele papel. Mas nos meus momentos sombrios eu também pensei sobre isso, por que ele me pega agora, e se eu posso fazer isso mesmo.
Com alguns você divide não só o trabalho, mas também a vida - particularmente Polanski foi então criticado. Porém, você disse que isso iria contra o seu grande respeito por ele.
Sim, ele era completamente diferente do que as pessoas pensavam. Ele era naturalmente uma figura paterna pra mim por causa da sua idade. E era nisso que ele mais estava interessado: no que eu penso, no que eu leio, se estou preocupada. Ele freqüentemente me dizia que eu tinha que ter responsabilidade. Havia alguém que realmente acreditava em mim e não só como modelo. Não era sempre fácil porque ele exigia muito de mim, mas isso não me perturbou.
A fofoca te perturbou?
Sabe, muitas pessoas naquele tempo diziam que eu era a Tess do Polanski, mas não era verdade. Eu tinha que aparecer sempre em fotografias durante meses porque isto pra ele era loucamente importante. Para Polanski o filme tinha grande importância porque ele queria fazê-lo com sua esposa, Sharon Tate, que havia amado o livro. Polanski, Wim Wenders e Wolfgang Petersen foram os três que mais fortemente me formaram no início de minha carreira e me guiaram nela. Eu tive então que repartir a família que eu nunca tive pelo mundo inteiro. Eram naquelas poucas pessoas que eu realmente poderia confiar.
Você cresceu na Alemanha, Itália, França, Venezuela, Inglaterra e Estados Unidos. Não se consegue mais parar de viajar?
Sim, porque você anseia por uma pátria.
Onde é sua pátria agora?
Eu nasci em Berlim, porém fiquei pouco tempo lá. Minha mãe se retirou pra Berlim e tentei achar a casa onde eu me sentava na escada com minha avó quando eu era criança. Hoje eu não tenho muitos parentes, só minha mãe, mas infelizmente ela mora muito longe. Minha pátria hoje é USA porque meus filhos estão aqui. O lar está onde a família está, onde os filhos estão.
Como a maternidade te mudou?
Totalmente. O cargo mais pesado e mais importante é o de mãe porque viver é tão complicado, mas também é muito lindo. Quando eu era criança, queria ter filhos, sempre desenhava uma família.
Você tem agora 46 anos. Pra você é uma bela ou assustadora experiência?
Ambas. Quando você tem filhos, você se dedica o dia todo a eles, mas quando você sente que um deles não stá fisicamente bem, então você teme que algo aconteça. Eu, por exemplo, fico cansada quando dirijo um carro, mas antigamente eu era tão forte! Então eu comecei a ter minhas próprias preocupações: o que vai acontecer? Às vezes o medo me supera e o mais difícil é dominar isso: o medo e esta insegurança com a vida e a morte...
Você tem uma concepção da morte ou da vida?
Eu acredito que a forte conexão que você tem com sua família, com seus filhos, sobrevive e continua.
Você disse uma vez que após receber a notícia do falecimento de seu pai, você teria lamentado por cinco minutos a morte dele.
O sentimento de luto se referia mais ao fato de que eu não poderia considerá-lo um pai. Então de repente ele estava morto e eu poderia aceitar isso sem problema, não obstante eu pensei: ele deveria ter sido meu pai, mas não era, e como é que eu o conhecerei agora, como?
Você usa uma cruz de diamante. Você crê?
Eu sempre cri, mas do meu jeito. Eu creio que Jesus realmente viveu e creio nos anjos e no Buda e em tudo que todas as religiões acreditam: amor, justiça e que nós estamos aqui a fim de encontrar isso e dar aos outros.
Quais os valores que você espera que seus filhos tenham?
O significado de responsabilidade e a alegria que os prepara para assumir responsabilidades. Com isso uma pessoa se sente completa, feliz, em crescimento. E eu gostaria de ajudá-los a não desistir de algo se ele se tornar difícil de alcançar. Além disso, eles devem acreditar em si mesmos porque antigamente eu não acreditava em mim, eu precisava que outras pessoas acreditassem em mim. Eu era triste, confusa e um alvo, a fim de sobreviver. Somente mais tarde eu achei a autoconfiança.
Onde?
Em algum lugar no meu espírito, no meu coração e nos meus filhos. Lá eu a achei, quando acordo de manhã. Eu acordo cedo e depois penso, escrevo, me agarro às coisas boas que eu alcancei na minha vida, mas antes de tudo eu apenas observo, é um tipo de meditação, porque eu sou muito crítica e me pergunto por que fiz isso ou aquilo.
Qual pessoa teve o papel mais importante em sua vida retroativamente com a sua procura por si mesma?
Talvez o primeiro amigo que tive, quando eu tinha 14 anos. Eu freqüentemente penso nele e acredito que ele me deu muita autoconfiança. O nome dele é Christian, ele era um ano e meio mais velho que eu e pertencia ao meu grupo de amigos naquele tempo. Eu tentei encontrá-lo, mas não lembro mais o seu sobrenome. Alguém me disse uma vez que ele se tornou um advogado e constituiu uma família.
As relações com os pais dos seus filhos, Ibrahim Moussa e Quincy Jones, faliram. Você ainda está à procura do amor da sua vida ou acredita nisso mesmo?
Sim, eu acredito nisso porque existem pessoas que o encontram. Eu já acreditei e pertenci a alguém, mas não era a pessoa certa, era apenas alguém que atravessou meu caminho. Ainda que Christian e as memórias permaneçam sempre em meu coração, existem alguns momentos na vida nos quais a gente se projeta.
Como um homem tem que ser pra se tornar seu grande amor?
Deve ser um bom ser humano. Algumas mulheres acham que ele deve ser sexy e atraente, mas eu sou diferente. Ele deve ser primeiramente um amigo meu, uma pessoa realmente boa, que não reclama, não maltrata, mas respeita. Acima de tudo, ele mesmo deve perceber que mereceu isso. A chance aumenta com aquele que consegue.
Você parece ter se afastado muito de Hollywood. Como é sua vida hoje em dia?
Como mãe, eu tenho levado uma considerável vida de dona de casa. Eu gosto de folhear com minhas filhas as revistas em que apareço. Eu folheio as revistas e digo: uau, pareço inteligente! Ou: eu realmente disse isso? Mas até eu mesma não sei se disse o que estava escrito lá. Alguns jornalistas escrevem algo de um jeito realmente forte. De vez em quando a gente vai a uma estréia de filme, mas nós levamos uma vida diferente da que levávamos antes.
Você ainda fala com Roman Polanski?
Sim, nós nos vemos às vezes. A filha dele tem a mesma idade da Kenya. Recentemente eu assisti "O Pianista" com minha filha, antes nós tiramos fotos em frente ao pôster do filme no cinema e as enviamos para ele.
Você escreve um livro agora.
Sim, um tipo de autobiografia e ainda tenho outras idéias além de filmes - é também sorte, e se volto a fazer um filme atrás do outro, não penso sobre isso, e se não observo, não tenho mais idéias. Por outro lado, de um certo modo eu perdi em todos esses anos a oportunidade de ficar em casa cozinhando e lendo em voz alta contos pras crianças, essa perda me faz ficar quase doente. Eu não sei exatamente como eu posso integrar meu trabalho com meu emprego como mãe de tempo integral. Eu dirigiria alegremente uma série de documentários. Eu trabalho no momento em uma amostra. é para funcionar sob o título "Close up". Eu pintaria pessoas com prazer, por exemplo Elizabeth Taylor. Eu acredito que trabalho nessas coisas também porque elas me dão mais controle. Como atriz, você é mandada o tempo todo e...
Se você pudesse ser outra pessoa por um dia, quem você seria?
Eu posso dizer algumas, mas já que eu tenho que selecionar, eu seria minha mãe. Porque eu poderia entendê-la alegremente. Embora eu a entenda muito mais agora do que antigamente. Mas talvez eu pudesse fazer algumas coisas diferentes e dar outra direção a outras porque a amo muito.